Desde o dia anterior, Ricardo de Ricardo – veja só o nome da peça – não estava no seu melhor dia. Tudo saia errado. Trabalhava numa oficina mecânica autorizada da concessionária BMW. Mas, na verdade, lá nunca apareceu um automóvel deste para conserto. Seu sonho era ter um, um dia. Sonhava constantemente com o carro, mas no final de seus sonhos, a BMW se transformava em fusquinha ou em barata.
A barata era sua inimiga número um. Estava sempre em cima de sua cama, além daquelas que resolviam passear em sua “enorme” casa de um cômodo. Muitas das vezes, sua cama parecia a Arca de Noé. Eram todos convidados a dormirem nela: ratos, lacraias, lagartixas… A lagartixa era sua grande amiga, comia todos os insetos, principalmente na noite que lhe acordavam de hora em hora. Ele, às vezes, chegava a exagerar, colocando as lagartixas em sua cama para compartilhar de seu sono. Isso era demais para a sua mulher. Nesses dias, ela dormia em cima dos caixotes que lhe serviam de cadeiras.
Apesar desses pequenos desentendimentos familiares, natural na vida de qualquer casal, seu lar era um mar-de-rosa. Afinal de contas, não e só pobre que tem dessas coisas, rico também tem: aquelas baratas que incomodam, animais que dão chifradas… Mas isso só nas suas insônias… Bem deixa pra lá! Como ia dizendo, Ricardo de Ricardo e sua mulher, apesar desses pequenos desentendimentos pelos seus animaizinhos de estimação, viviam felizes – umas meias dúzias de discussões durante o dia, seis durante a noite, seis no café da manhã e mais seis no jantar. Para acalmar o casal, os vizinhos do lado, a 300 metros de distancia, tinham que intervir. Caso contrário, os “carinhos” continuavam no dia seguinte.
As brigas vinham seguidas de reconciliações de amor, em um prolongado “Ai Love Iurrr”… Das noites misteriosas de 120 dias sem se cruzarem. Era uma noite inesquecível para os dois. Quando acontecia só tinha um objetivo: gerarem um novo herdeiro. Ambos com 40 anos sonhavam ter 40 filhos. Afinal já tinham 37 filhos e não se sabia como, e de que forma acomodavam os 37. Só “Froude” explica!!!
Cinco da matina, já se foi madrugada adentro, e quem passava na estrada escutava o pio da coruja: “Aí Love Iurrrr”. De repente Ricardo de Ricardo deu um pulo da cama. Estava na hora de se levantar para o trabalho. Sua mulher levantou um pouco sem jeito, desconsolada, não conseguiu da o último urrrrrrrr da madrugada. Não sabia quando seria a próxima felicidade. Uma eternidade. Isso também frustrava a multidão que ficava lá fora nestas noites querendo descobrir o esconderijo da tal coruja. Todos queriam pegá-la, embora alguns caçadores andassem desconfiados de onde vinha tal barulho. A comida neste dia tinha que ser especial, a mesma de sempre: arroz com feijão, se bem que às vezes não era feijão, era aquele negocinho da barata com ovos de lagartixa. Mais forte que ovos de codorna. E Ricardo de Ricardo tinha uma boa criação. Comia uns 20 por dia… E lá vai ele com sua marmita na mão, que mais parecia um embrulho… E dos grandes! Também pudera haja resistência!
Ricardo de Ricardo era um homem conhecido na vizinhança e na condução, graças a sua marmita que dava aquela baita confusão e também por ser uma pessoa comunicativa, popular. Encontrava-se com um e outros e aos poucos era aquela romaria. Se fosse candidato a governador, seria eleito. Faria obras melhor que o ex-governador Leonel Brizola. Pelo menos em matéria de construção civil, quem conhece a casa dele sabe. É uma obra de dar inveja a Oscar Niemeyer. Seus seguidores de viagem já sabiam que ele tinha novidades para contar. Beijava os amigos, comprava bala para as crianças, dava esmola para os cegos, assobiava, e o pessoal atrás dele querendo saber por que tanta felicidade.
A história era contada no ponto de ônibus da linha: Bairro da Misericórdia – Deodoro. Na verdade mais miséria e discórdia do que qualquer outro bairro ao lado. Ricardo de Ricardo colocou a marmita no chão, sentou em cima e começou a contar as façanhas da vida. Gesticulava para um lado e para o outro, quando foi interrompido pela chegada do ônibus, ou melhor perua – aquele veículo com cara de caminhão e o corpo de alguma coisa. Nessa altura, no meio do empurra-empurra, não existiam mais amigos. O negocio era sentar. E ele deu sorte e entrou primeiro conseguindo um lugar logo na frente. Mas quando já bem confortável deu falta da marmita que deixará lá fora. E, num impulso foi ao encontro dela. Teve que se conformar em viajar pendurado do lado de fora, com uma mão na marmita e a outra na porta traseira do ônibus. Chegando em Deodoro, ficou macho. Tomou a bala de uma criança, deu chute em cachorro, mandou a velhinha para… Com a marmita debaixo do braço que já pesava 150 quilos.
A fila do trem fazia curva de 1 km e um passageiro engraçadinho resolveu passar um chegue de 50 reais na quiche para pagar a passagem, e o atendente lhe deu o troco com moedas de 5 e 10 centavos. O trem já apitava lá na curva e quando Ricardo de Ricardo viu, saiu empurrando todo mundo que estava na frente. Se perdesse aquele trem, perderia o emprego. Na hora de passar no guichê, em vez de dar o dinheiro, deu a marmita. E o trem já na plataforma dava o primeiro sinal de partida. No meio da escada ele sentiu que faltava algo. Botando fogo pelas narinas voltou aos pulos, deu uma bronca no cara do guichê, pegou a marmita e desceu a escada aos pinotes de três em três degraus.
O trem deu o último sinal de partida, começou a fechar as portas e Ricardo de Ricardo no desespero, só teve uma alternativa: colocou sua grande e larga marmita entre a porta para não fechar e entrar, e… entrou todo mundo, menos ele. Aí o trem deu a partida, mesmo com a marmita presa na porta. Ele colocou suas mãos sobre a cabeça, como se estivesse perdendo um ente querido e inconformado partiu atrás da marmita. As pessoas riam da cena, vendo-o querendo pegar a marmita e ela correndo dele. Como não dava mais, ficou olhando-a no seu último adeus. Frustrado, desconsolado, sentou-se a beira da plataforma lamentando a saborosa comida que sua mulher havia preparado para ele, e que se foi…
Tempos passaram e os amigos de Ricardo de Ricardo descobriram na verdade como é que ele tinha tantos filhos e qual o motivo de se chamar assim. .
Por Guilherme da Franca
Em permutas pela vida, penso como seria um mundo onde não pudéssemos expressar tudo o que sentimos. Deve ser irrelevante, frustrante e completamente nervoso.









